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“Meu sonho era estudar”: aos 10 anos, Keulyane entra pela primeira vez em uma sala de aula na Resex Chico Mendes

Após 21 anos sem oferta de ensino na comunidade, união de esforços entre instituições públicas transforma antiga reivindicação em realidade, dois meses depois de força-tarefa chegar à região isolada

07/07/2026 às 10h27 Atualizada em 07/07/2026 às 14h33
Por: Admin
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“Meu sonho era estudar”: aos 10 anos, Keulyane entra pela primeira vez em uma sala de aula na Resex Chico Mendes

Aos 10 anos, Keulyane Vasques de Carvalho viveu, nesta segunda-feira, 6 de julho, uma experiência comum para muitas crianças, mas que, para ela, parecia um sonho distante: entrar pela primeira vez em uma sala de aula.

 

Com o material escolar nas mãos, professores à sua espera e a expectativa de finalmente aprender a ler e escrever, a menina tornou-se o símbolo de um dia histórico para as famílias que vivem no Seringal Remanso, colocação Buenos Aires, Núcleo de Base Sete Orquídeas, dentro da Reserva Extrativista Chico Mendes.

Keulyane

Depois de 21 anos sem oferta de ensino na localidade, as aulas tiveram início nesta segunda-feira. A escola começa a funcionar atendendo 15 crianças em turmas multisseriadas, além da perspectiva de oferta de educação para jovens e adultos que também não tiveram oportunidade de estudar.

 

Distante cerca de 74 quilômetros de Rio Branco, a comunidade enfrenta uma realidade de isolamento severo, especialmente durante o inverno amazônico, quando as condições do ramal tornam o acesso ainda mais difícil. Segundo os moradores, em determinados períodos do ano, as famílias podem permanecer até 180 dias com enormes dificuldades para chegar à capital.

 

O início das aulas é resultado de uma mobilização que ganhou força há dois meses, quando uma força-tarefa liderada pela presidente do Tribunal de Contas do Estado do Acre (TCE-AC), conselheira Dulce Benício, enfrentou mais de dez horas de viagem, lama, atoleiros e longos trechos a pé para chegar à comunidade, ouvir os moradores e articular, com os órgãos responsáveis, respostas para problemas acumulados ao longo de décadas.

Naquela ocasião, as famílias relataram a ausência de escola, de atendimento regular em saúde, energia e péssimas condições de acesso. Crianças nunca haviam estudado, mães contaram histórias de partos realizados em condições extremas durante tentativas de chegar à cidade e produtores relataram dificuldades para escoar alimentos e produtos da floresta.

Dois meses depois, as instituições retornaram à comunidade. Desta vez, para acompanhar o início das aulas e os primeiros resultados dos compromissos assumidos com as famílias.

 

A comitiva reuniu o prefeito de Rio Branco, Alysson Bestene; a presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício; a conselheira e diretora da Escola de Contas, Naluh Gouveia; o secretário adjunto de Estado de Educação, Tião Flores; a secretária municipal de Educação, Kelce Paes; o secretário municipal de Saúde, Rennan Biths; além de representantes do Ministério Público do Estado do Acre (MPAC), da Defensoria Pública do Estado do Acre (DPE/AC), do Instituto Chico Mendes de Conservação da Biodiversidade (ICMBio), da Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública, do Grupo Especial de Operações em Fronteiras (Gefron) sargentos Ditomásio, Emisson e Geovane e o policial penal Ronaldo, e do Corpo de Bombeiros Militar do Estado do Acre.

 

Também integraram a missão institucional pelo TCE-AC os auditores de Controle Externo Arão Cavalcante e Gustavo Maia; os servidores Arthur Leite, Andréia Oliveira, Ludmila Francisca, Marcos Jorge Dias, Steiner Ribeiro Cascais e José Bernardino Albuquerque dos Santos.

 

Da denúncia à sala de aula: dois meses que mudaram uma história de 21 anos

 

A história que culminou no início das aulas começou a mudar quando o líder comunitário Odair José, depois de anos buscando apoio em diferentes instituições, procurou o Tribunal de Contas e relatou à presidente Dulce Benício a situação vivida pelas famílias.

 

A partir desse encontro, o TCE-AC iniciou uma articulação com os órgãos responsáveis pelas políticas públicas e liderou, há dois meses, uma missão institucional até o Seringal Remanso. O percurso permitiu que gestores e equipes técnicas conhecessem, na prática, a realidade de uma população que convive com o isolamento e com dificuldades históricas de acesso aos serviços públicos mais básicos.

 

Na primeira visita, a comunidade apresentou suas demandas e os órgãos assumiram compromissos. Entre eles estava o início das aulas, inicialmente em um espaço cedido pela própria comunidade, enquanto são discutidas soluções permanentes para a estrutura educacional da localidade.

 

Nesta segunda-feira, ao ver as crianças em sala de aula, Odair não conseguiu conter as lágrimas.

 

“A escola da nossa comunidade estava desativada havia 21 anos. Eu já tinha batido em várias portas e não tinha conseguido. Estava quase desanimando quando conheci uma pessoa que me levou ao Tribunal de Contas e me apresentou à presidente, conselheira Dulce. Eu tive uma surpresa. Por ela representar um grande órgão, achei que nem seria atendido, mas aconteceu exatamente o contrário”, contou.

Segundo ele, o acolhimento da demanda foi decisivo para que a situação da comunidade ganhasse visibilidade e diferentes instituições fossem mobilizadas.

 

“A dona Dulce abraçou a causa dessa comunidade. Em pouco tempo, vimos as coisas começarem a acontecer. Foi no Tribunal de Contas que a comunidade de Buenos Aires encontrou acolhimento e, hoje, aquele sonho que já estava quase enterrado está se concretizando”, afirmou.

 

Para o líder comunitário, ver os filhos dos moradores dentro de uma sala de aula representa mais do que a chegada de um serviço público. Significa a recuperação da esperança de uma comunidade inteira.

 

“Hoje, 6 de julho de 2026, no mesmo ano em que procurei o Tribunal de Contas, estamos vendo a escola funcionar aqui em Buenos Aires. É uma alegria inexplicável ver nossos filhos estudando, porque sabemos que eles são o futuro. O TCE olhou para a nossa dificuldade e para a nossa necessidade. A palavra certa é gratidão, em nome de toda a nossa comunidade”, declarou.

 

“Quando as instituições se unem, as políticas públicas acontecem”

 

Para a presidente do TCE-AC, conselheira Dulce Benício, o início das aulas demonstra que a cooperação institucional é capaz de superar barreiras geográficas e fazer com que as políticas públicas alcancem populações historicamente invisibilizadas.

 

“Este esforço mostra que, quando as instituições se unem, as políticas públicas acontecem onde quer que a sociedade se encontre. Estamos na Reserva Extrativista Chico Mendes, em uma comunidade onde, por mais de 20 anos, não havia oferta de ensino e havia enorme dificuldade de acesso aos serviços de saúde. Hoje, podemos ver que esse serviço está começando, com muito esforço, mas também com muita vontade de fazer acontecer”, afirmou.

 

A presidente destacou que a abertura da escola representa um primeiro passo e que o trabalho precisa avançar para assegurar a qualidade e a continuidade dos serviços públicos.

 

“É o momento em que a educação abre sua porta. Esse é o primeiro passo. Precisamos valorizar os servidores que vão cuidar desses estudantes. Não basta apenas ofertar vagas; é preciso garantir um serviço de qualidade, com profissionais qualificados, espaços adequados e participação das famílias no processo de aprendizagem”, ressaltou.

 

Dulce também chamou a atenção para o contraste entre a distância geográfica e a dificuldade extrema enfrentada pelos moradores para percorrer os cerca de 74 quilômetros que separam a região da capital.

 

“Estamos falando de uma comunidade que fica a cerca de 74 quilômetros de Rio Branco e que chega a passar até 180 dias com enorme dificuldade de acesso à capital. Isso impressiona e mostra o tamanho do desafio que ainda temos pela frente para garantir qualidade de vida a essas famílias”.

 

Para a presidente, um dos resultados mais significativos da mobilização foi a recuperação da confiança da comunidade nas instituições públicas.

 

“Depois de lutar por mais de 20 anos por esse serviço, a comunidade voltou a acreditar. Vimos a alegria das famílias e das crianças. Uma menina de 10 anos disse que o sonho dela era frequentar uma escola e, hoje, ela está em sala de aula, com seu material, professores e merenda garantida. Isso é muito importante porque mostra que a comunidade responde à presença das instituições públicas”, declarou.

 

Dulce Benício também ressaltou o papel de articulação exercido pelo Tribunal de Contas.

 

“O papel do Tribunal é um papel de controle, mas também buscamos contribuir para que as políticas públicas funcionem. Nosso trabalho aqui foi chamar, agregar e aproximar as instituições responsáveis pela oferta desses serviços. Hoje, estamos vendo uma resposta maravilhosa, que muito nos alegra”, afirmou.

 

Uma hora a cavalo para garantir o direito de estudar

 

Se a abertura da escola representa uma vitória histórica, o cotidiano das famílias mostra que ainda existem grandes desafios a serem superados.

 

Mãe de uma aluna de 9 anos, Sheila Maciel mora na Colocação Vertente e precisa viajar cerca de uma hora a cavalo para levar a filha até a escola.

 

“A dificuldade que todos encontram aqui é o acesso. Da minha localidade, que nem é considerada tão distante, gasto uma hora a cavalo para chegar à escola. Não tenho como mandar minha filha sozinha porque ela só tem 9 anos e nós vivemos em uma região com muitos animais silvestres, principalmente felinos”, relatou.

 

Por segurança, Sheila acompanhará a filha no percurso até a escola.

 

“As crianças estudam durante o dia e retornam no fim da tarde, justamente em um horário de maior atividade desses animais. Minha filha teria que atravessar um longo percurso de mata. Por isso, eu vou vir com ela para que possa estudar”, afirmou.

 

Apesar das dificuldades, Sheila define o início das aulas como um marco para toda a região.

 

“Hoje, 6 de julho de 2026, é um marco histórico para Buenos Aires e para as comunidades da Reserva Chico Mendes. Foram muitos anos de batalha e luta. Vários líderes passaram por essa causa e, em determinado momento, já não conseguíamos mais acreditar. Mas veio uma esperança no fim do túnel e esse sonho foi realizado”, disse.

 

Para a mãe, a alfabetização abre uma nova perspectiva de futuro para as crianças.

 

“Agora nossos filhos poderão ser alfabetizados. Não precisarão mais pegar um livro e apenas olhar as figuras sem saber o que está escrito. Eles poderão explorar o mundo por meio dos livros. Muitas vezes, não podemos viajar, mas podemos viajar no sonho e na imaginação através da leitura”.

 

Professores deixam a cidade e passam o mês na comunidade

 

O desafio de garantir educação em uma região isolada também exige dedicação dos profissionais que assumiram a missão de ensinar na comunidade.

 

A professora Clenilce Pontes explica que, entre os novos estudantes, há crianças e adolescentes de 12 e 13 anos que entram pela primeira vez em uma sala de aula.

 

“Este dia é muito importante para a comunidade. Depois de 21 anos sem a escola funcionando, a comunidade conseguiu reativar esse espaço. Nosso trabalho é muito importante porque temos crianças de 12 e 13 anos que estão pisando pela primeira vez em uma sala de aula”, explicou.

 

Segundo a educadora, a realidade exige um trabalho cuidadoso e sensível às particularidades dos estudantes.

 

“É um trabalho minucioso, que exige muito cuidado. São crianças que necessitam do aprendizado e vivem em uma comunidade praticamente isolada, com acesso muito difícil. Para nós, estar aqui e participar desse momento é muito significativo”, afirmou.

 

Clenilce e a professora Rosana deixarão suas casas na cidade para permanecer durante todo o mês na comunidade, retornando a Rio Branco uma vez por mês.

 

“Nós moramos na cidade e ficaremos o mês inteiro aqui. Vamos à cidade uma vez por mês. É uma doação total. Ao mesmo tempo, a comunidade nos acolhe e nós nos tornamos praticamente parte da família. Eles nos receberam, cederam alojamento e vamos continuar nosso trabalho buscando fazer o melhor junto com a comunidade”, destacou.

 

União de esforços leva educação, saúde e esperança

 

O prefeito de Rio Branco, Alysson Bestene, afirmou que o início das aulas é resultado de uma ação conjunta entre diferentes instituições e destacou que a atuação na comunidade não se limitará à educação.

 

“Ninguém faz nada sozinho. Se não fosse essa união de forças com o Tribunal de Contas, com o Governo do Estado, com as forças de segurança e as demais instituições, não seria possível chegar a essa comunidade e desenvolver essas ações”, afirmou.

 

Segundo o prefeito, a Prefeitura de Rio Branco passou a atuar na localidade com ações de educação e saúde, além da busca por melhorias nas condições de acesso.

 

“Nós tínhamos crianças, jovens e adultos que não tiveram acesso à educação e não foram alfabetizados. Hoje, a Prefeitura está dando o suporte necessário para o início desse trabalho. Também temos ações de saúde e já começamos a trabalhar na melhoria do ramal até onde é possível chegar com maquinário”, explicou.

 

A escola começa a funcionar com 15 crianças em turmas multisseriadas. A estrutura educacional também deverá atender jovens e adultos da comunidade.

 

Bestene ressaltou que as condições amazônicas exigem políticas públicas adaptadas à realidade das populações isoladas.

 

“Fazer educação e saúde chegarem às comunidades mais distantes da Amazônia é um grande desafio. Por isso, precisamos de todos envolvidos e de um olhar diferenciado para a região amazônica. As políticas públicas precisam chegar a essas comunidades durante todo o ano, tanto no inverno quanto no verão”, afirmou.

 

O prefeito acrescentou que a ação desta segunda-feira é apenas o início de uma agenda permanente de trabalho.

 

“Esta é uma primeira ação entre muitas que ainda virão. Precisamos continuar trabalhando para que as políticas públicas alcancem as comunidades mais distantes e, principalmente, aqueles que mais precisam”, declarou.

 

Onde antes havia espera, agora há crianças aprendendo

 

Há dois meses, a equipe que chegou à Comunidade Buenos Aires encontrou famílias que se sentiam esquecidas. Pais e mães relatavam que seus filhos cresciam sem estudar. Crianças sonhavam com uma escola. Mulheres contavam histórias de partos realizados durante viagens em busca de atendimento. Produtores viam sua produção ficar parada por falta de acesso.

Naquele primeiro encontro, os moradores pediram algo essencial: que o poder público os enxergasse e que os direitos garantidos a qualquer cidadão também chegassem até eles.

Nesta segunda-feira, a mesma comunidade recebeu professores, abriu a sala de aula e viu crianças segurarem pela primeira vez o próprio material escolar.

O início das aulas não resolve, sozinho, todos os desafios de uma população que ainda enfrenta isolamento, longas distâncias, falta de infraestrutura e dificuldades para acessar serviços básicos. Mas representa uma mudança concreta na história da comunidade e demonstra o que pode acontecer quando as demandas da população encontram escuta, articulação e união de esforços entre as instituições.

Para as famílias de Buenos Aires, o dia 6 de julho de 2026 passa a ocupar um lugar especial na memória coletiva: o dia em que uma espera de 21 anos terminou e uma porta se abriu.

A porta de uma escola. E, para Keulyane e tantas outras crianças da Reserva Extrativista Chico Mendes, a porta para um futuro que, até então, existia apenas como sonho.

 

Por: Andréia Oliveira

Fotos: Rio Branco Filmes

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