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Vocabulário emprestado
Poc, poc… Você já sabe?! Vem pipoca por aí. Mas o que isso tem a ver com o texto? Tudo.As palavras pipoca, igarapé, açaí, capivara e, mais regional...
14/06/2026 08h46
Por: Admin Fonte: Secom Acre

Poc, poc… Você já sabe?! Vem pipoca por aí. Mas o que isso tem a ver com o texto? Tudo.

As palavras pipoca, igarapé, açaí, capivara e, mais regionalmente no Acre, carapanã fazem parte do vocabulário nortista. Tá, mas o que elas têm em comum? Vamos fazer como Jack, rs, por partes. São palavras adaptadas dos idiomas dos povos indígenas. Sabia disso? Curioso, né?! Será que os demais brasileiros sabem ou procuram saber?

Bem, desde que “escolhemos” as palavras para sobreviver (lá, tão, tão distante…), entre os nossos iguais, temos a necessidade de conhecer e entender de onde vêm as coisas. Como diria a Kika: “De onde vem?”.

Explicando em miúdos, a Kika é uma personagem de desenho bem conhecida entre a geração dos anos 90 e fez sucesso até com os pais, já que eles, amigavelmente, ficavam felizes por não ter que dar tantas explicações naquela fase dos 4 aos 6 anos para os pequenos. A fase é aquela: a criança é um rádio, e os pais fazem o papel da pilha. Kkk! Mas, voltando à linguística e à pergunta da Kika…

O brasileiro adora um termo emprestado. É bonjour para cá, my God para lá, hasta luego acolá. E pode ter certeza: muita gente sabe de onde vêm essas expressões.

Agora, cá para nós, a maioria dos brasileiros utiliza palavras indígenas sem perceber a influência de famílias linguísticas como o tupi-guarani e o macro-jê. E por que isso ocorre? Pergunta retórica. Você sabe? Não é sermão, é conversa sincera.

Talvez porque, ao longo da nossa história, tenhamos aprendido muito mais sobre algumas heranças culturais do que sobre outras.

O apagamento da história indígena pelo português não foi só triste, foi condenável. Amenizei até a palavra, mas não a “situação de barril”, como diria o meme.

Huuum, possivelmente, a questão não seja apenas saber de onde vem uma palavra. Talvez seja reconhecer quem a trouxe até aqui.

Mas antes de seguir adiante, vale uma pequena pausa. E Paul Ricoeur tem algumas ideias capazes de acender umas lâmpadas mentais por aqui, rs. Para ele, lembrar e reconhecer não são exatamente a mesma coisa. A gente pode saber que algo existiu e, ainda assim, não lhe dar o devido lugar.

Talvez seja isso que aconteça com muitas das palavras indígenas que usamos diariamente. Elas estão presentes, mas suas histórias nem sempre são reconhecidas. Reconhecer é mais do que lembrar. É olhar para uma herança que sempre esteve ali e finalmente chamá-la pelo nome.

Vou deixar essa conversa igual a porta, entreaberta, porque é uma conversa densa e para outros momentos… Mas, quando falamos em reconhecimento, será que existem armadilhas?

É justamente aí que mora uma das armadilhas mais persistentes do senso comum: achar que os indígenas são todos iguais. Não são. Nem de longe. Seria como dizer que todo nortista é a mesma coisa. Ora, o Pará não é o Amazonas, não é Rondônia, não é o Acre. Se já nos incomoda quando simplificam as nossas diferenças, imagine as deles.

Ainda assim, apesar de toda essa diversidade, existe algo que atravessa povos, territórios e gerações.

Convenhamos, os povos indígenas conseguiram um feito e tanto. Mesmo diante de séculos de violência, apagamento e silenciamento, deixaram marcas tão profundas que hoje atravessam o país inteiro. Estão no açaí, no igarapé, na pipoca, na capivara e até no carapanã, que ninguém consegue ignorar.

E talvez seja justamente por estarem tão presentes que quase não as percebemos.

A ironia é que muitos brasileiros conhecem a origem de palavras estrangeiras que usam de vez em quando, mas raramente se perguntam sobre aquelas que pronunciam todos os dias. Talvez porque aquilo que está mais perto nem sempre seja o que mais enxergamos.

Tentaram apagar os povos indígenas da história oficial, mas esqueceram um detalhe importante: as palavras têm memória. E elas continuam por aí, circulando livremente de boca em boca, lembrando que algumas presenças resistem justamente porque se tornam impossíveis de apagar.

Danna Anute é graduada em Letras – Francês e em Jornalismo pela Universidade Federal do Acre (Ufac). Atuou como repórter na Secretaria de Estado de Comunicação e, no âmbito federal, como assessora de imprensa no Ministério dos Transportes. Em Goiânia, integrou a Plural Imagem e Som, produtora premiada nacionalmente. Atualmente, é assessora de comunicação da Secretaria Extraordinária dos Povos Indígenas, onde atua na valorização e na visibilidade dos povos originários.

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